O Amor… novamente?

Posted in Prosa on 10/06/2010 by franzbritten

Há dias que olho através da janela e nada vejo anuncer terra, montes, pinheiros e eucaliptos. Todos os dias tento ver se há algo novo mas nada muda. Eis que um dia, quando abria as cortinas pela manhã, vislumbrei aquela Natureza quase morta de outra maneira. Havia algo de diferente, de especial. Havia um vento que tocava os eucaliptos e pinheiros mais pequenos (os maiores devido à sua robustura não se deixavam mover por esta harmoniosa melodia que tocava os corpos que se lhe atravessavam), havia um sol mais brilhante, que fazia com que as sombras se desenhassem no chão com mais graciosidade e vida,  gotas de orvalho sarapintavam as folhas das plantas que cantavam com o seu doce aroma, um arco-íris que já se ia desvanecendo mas que eu ainda consegui ver. Sentia grande alegria ao ver aquela cena de pura e natural beleza. E via as pessoas lá fora de guarda- chuvas abertos. Elas não paravam para olhar este esbelto fenómeno. Perguntava-me porque… De repente tudo parou. Já não havia sol, nem arco-íris, nem brisa ou orvalho. apenas chuva acompanhada de trovoada. (Afinal os guarda-chuvas eram necessários). Então fechava os olhos e via tudo maravilhoso outra vez. E abria os lhos de novo. E de novo a chuva. Comecei a pensar. Sou eu. Tem que ver comigo e apenas comigo. É então que o telemóvel vibra. Uma mensagem escrita: “Adoro-te para sempre. Quero-te ao pé de mim.” Esqueci-me do quão alegre estava por ter falado apenas ao telefone. Lembrei-me que estava apaixonado, ou para lá caminho. De qualquer maneira é uma felicidade indiscritível.

Precisará o Homem da religião?

Posted in Religião on 30/05/2010 by franzbritten

O ser humano em geral necessita de religião porque é fraco no sentido em que não pode viver sem um apoio, sem uma certeza de que será acolhido em algum lado depois da morte. Deus foi criado pelos Homens, é fruto da mente do homem como outro qualquer produto cultural (um livro, uma música, um quadro, …). Ele nasceu para responder às perguntas “O que acontece depois da minha morte?” e “Donde é que o mundo apareceu, bem como eu?”. Os povos primitivos já tinham religião. Mas seria essa religião única? Ou existiam várias formas de religião, tal qual temos hoje o Islão, judaísmo ou budismo? Eu penso que existiam, tal como hoje, muitas versões do mesmo “Deus”. Porquê? Porque Deus não se “manifestou” nunca na Natureza de forma irrefutável como a Bíblia afirma com a Criação, apenas na imaginação, criatividade e subjectividade da mente humana para interpretar a realidade que o rodeia. Fideísmo (com a qual me identifico), panteísmo, agnosticismo, deísmo, ateísmo, teísmo, … Tantas são as formas de ver a figura de Deus. No entanto nenhuma delas serve realmente para reconhecer Deus ou prestar-lhe culto (isso é acessório). Servem sim para reconfortar a fraqueza do ser humano, responder às suas dúvidas existenciais. Actualmente no teísmo Deus não tem começo, não tem fim. É omnipotente, omnisciente, benevolente e caridoso. Tal era a incerteza (como poderemos ter a certeza absoluta sobre algo que, se existir, nos transcende, ou seja, sobre algo que à partida não existe?) sobre Deus em épocas mais remotas que nem se sabia dizer quais as suas características. Apenas sabiam dizer quem Deus não era, para que as suas interpretações fossem de acordo com aquilo que pensavam que lhes tinha acontecido para estar no mundo, a verdade sobre quem a idealização de quem os “criara”. Deus conforta. Deus é bom. Deus olha por todo o mundo. Porque será então que só se vêm guerras e ódio? Não evitaria Deus tudo isto? Porque vive tanta gente em desespero e sem saber o que fazer da vida? Não é Deus que conforta? Porque é que há tanta desigualdade? Não era Deus que queria a igualdade para todos? Deus é questionação porque ele não existe. Não existe porque o Homem não consegue atingir na sua racionalidade toda a excelsa figura que lhe atribui. Deus é tudo. Conseguiremos na nossa cabeça tão incipiente apesar de todo o conhecimento à nossa disposição formular entendimento para “tudo”? Não conseguimos. Eu posiciono-me no fideísmo. O espaço hermético onde colocámos Deus não é atingível pela razão (daí chamar-se espaço hermético), logo nunca podemos realizar Deus na nossa cabeça e muito menos criar uma Igreja que se diga detentora da verdade celeste. A Igreja é hipócrita. Os seus dogmas foram mudando ao longo da sua História (quase parece uma criança de olhos vendados a tentar caminhar sem saber onde anda… anda perdida.) A Fé começa onde a Razão acaba. A Fé é a fantasia do conforto. A Fé é a auto-ilusão e a estupidez dos fracos. Homem que desse nome seja digno nunca poderia acreditar em Deus já que estaria a trair a sua racionalidade. Só há Deus para quem não tem informação, para quem não consegue perceber que a vida é para aproveitar, já que não temos certeza daquilo que nos espera após a morte (com certeza a não-existência, pelo menos nesta dimensão como dizem os religiosos). À vista dos religiosos com quem contacto eu sou um enorme poço de blasfémias e eu sempre lhes respondo desta forma: Se o vosso Deus realmente existe, ele é  compassivo, manso, clemente e misericordioso. Quando me encontrar com ele para o julgamento final, tenho a certeza de que com todas essas qualidades que vocês lhe atribuem ele perdoar-me-á.

Fernando Pessoa – O Amor

Posted in Poesia, Uncategorized on 29/04/2010 by franzbritten

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pr’a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar..

A maior das indefinições

Posted in Poesia on 25/03/2010 by franzbritten

Se ao menos eu soubesse que o mesmo existe dentro dela…

Porque é que não se movem os mares para mo dizer?

Falsidade e ilusório. Hoje Tudo é assim.

E amanha tudo me é Verdade.

E tenho um peito amigo…

E de repente não me chega.

E num dia de Verão sento-me à sombra de uma árvore…

E a sombra não me alivia da mentira que Apolo me contou!

E contou ele e todos os outros, todas as outras, todas as coisas!

Tudo rui.

As entranhas de mim consomem-me como o ácido corrói o ferro

Os arames que me esmagam a carne cá dentro

Doem como nunca doeram.

Mas se te dizes feliz que mais posso eu querer?

Que mais posso eu pedir senão o teu sorriso??

Esse sim é o Verdadeiro Sol da Aurora…

Esse sorriso que me é a verdadeira brisa e sombra conjuntas numa noite abafada de Verão.

Que me deleita ao olhar… Que é tentação e ousadia…

E mais não te posso eu dizer…

Quem me entender que o escreva na sua memória para que um dia recorde estas palavras,

Com a mesma força com que as vou agora apagar…

E daqui a momentos dizer outras.

Ausência – José Régio

Posted in Poesia on 25/03/2010 by franzbritten

Um a um, vão-se-me os dias,

Dia a dia, eu vou com eles…

Olhos extintos, mãos frias,

Perpasso ao longo dos dias

Como sombra que repeles…

E porquê? por que me deixas

Nesta frieza, em que forças

Nem tenho para erguer queixas

Cujo alívio me nem deixas,

Ou contra mim já não torças…?

Não me vês Tu sofrer tanto

Quanto gostas de me ver?

Ou não sei eu, por enquanto,

Valer-me de sofrer tanto

Para chegar a vencer?

No entanto, vão-se-me as horas

Num sofrer tudo o que passa,

Só porque Tu Te demoras

A atirar às minhas horas

Uns restos da Tua graça…

Levanto os olhos lá cima

Sondo esse abismo estrelado,

Baixo-os ao chão…, e o que anima

Esse abismo lá de cima

Anima a colina e o prado:

Ao teu simples ígneo sopro,

Abrem-se os astros, as flores,

E as cavernas como a escopro…

Encapelam-se, ao Teu sopro,

Vento e mar com seus furores…

Só a mim me não aqueces

Com as bençãos do Teu bafo!

Só dum ser vivo Te esqueces,

E este ar que já não aqueces

Me não é ar, e eu abafo…

Fosse eu pedra bruta! fosse

Uma pouca de água! um bicho

Sem razão, feroz ou doce,

Que virias!, nem que eu fosse

Qualquer montinho de lixo…

Fosse eu terra…, e dera flor!

Fosse eu ar, mar… gozaria

No sol Teu próprio calor!

Que o céu dá sóis e o chão flor

Porque o Teu amor lhos cria…

Mas sou este ser humano

A quem deste alma, razão,

Coração, vontade… e o engano

De sonhar ser mais que humano,

Contra a humanal condição!

E é por ser mais, que me deixas

Na solidão em que estou?

Por ser Teu filho, me fechas

Assim só comigo, e deixas

Entregue ao não-ser que sou?

Não posso! Que farei eu,

Tua obra-prima falhada,

Que acusa quem na escreveu

De lhe dar o que lhe deu

E a deixar não terminada?

Desde que Te amo, não sei

Com nada mais contentar-me!

Onde estarei? onde irei?

Desde que Te amo que sei

Que é tudo o mais vão alarme…

Corra que não corra o mundo,

Só sobre mim próprio giro

Sem mais encontrar, ao fundo

Dos mil caminhos do mundo,

Que um eu contra quem me firo…

Qualquer jornada que faça,

Qualquer empresa que tente,

Se me falha a Tua graça,

Faça o que faça ou não faça,

Que faço que me contente?

Amar-me, já não o consigo;

Fugir-me a mim, não no alcanço;

Não suporto estar comigo!

Se consigo ou não consigo,

Da mesma maneira canso…

Toda a largueza do mundo

Não me cura a falta de ar!

Sufoco!, neste profundo

Buraco negro que é o mundo

Que só tu vens alargar…

E Tu não vens! e há que dias,

Há que séculos, Te espero,

De olhos extintos, mãos frias,

Sem nada que me encha os dias

Senão frio e desespero!

Fervem-me no peito as queixas,

As blasfémias, o clamor

Do abandono em que me deixas…

Mas gritos, blasfémias, queixas,

Bem sabes que é tudo amor!

Bem sabes como é verdade

Que nada Te substitui,

Ou Te empana a claridade,

Em quem, por ver Verdade,

Já tudo em volta lhe rui…

Ai, que os irmãos me não creiam,

É de crer! pois lhes advém

Que soletrem mas não leiam,

E só creiam, ou não creiam,

Consoante lhes convém.

Mas Tu, que me vês por dentro

Como eles vêem por fora,

Tu, em cujo amor eu entro

Nu até alma, por dentro

Dum banho lustral de aurora,

Tu, – não! não podes deixar-me

Sem ti, nem nada no mundo!

Para quê todo este alarme?

Mas como é que ousas deixar-me

Sequer um breve segundo?

Pois não vês que já pertences

Ao amor com que me enleias?

Não me enleies, ou não penses

Que eu, sim, mas Tu não pertences

Às nossas comuns cadeias!

Livra-me de ti de vez,

Se Te não queres cativo

Do meu amor! Ou não vês

Que isto é nem morrer de vez

Nem, também, me sinto vivo?

Em Ti, por Ti amo tudo!

Se Te vais e em vão Te chamo,

Fico cego, surdo, mudo…

Faltas-me e faltam-me tudo,

Que afinal só a Ti amo!

Pois bem, deitar-me-ei por terra,

Nu no chão nu, sem conforto

Senão o cinto que enterra

Seus férreos dentes na terra

De minha carne e meu corpo,

Deitar-me-ei dias e noites,

Não provarei água ou pão,

Fustigar-me-ei com açoites,

Encherei dias e noites

Gritando a Tua traição,

Até que venhas! até

Que, de novo, a Tua graça

Me dê calor, luz, ar, fé,

Me ressuscite! ou até

Tudo o que sou se desfaça…

Régio, José;  “Mas Deus é Grande” – 1945

Poema do Menino Jesus – Alberto Caeiro

Posted in Poesia on 25/03/2010 by franzbritten
Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
“Se é que ele as criou, do que duvido.” -
“Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.”
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
… … … … … … … … … … … … … … … … … … …
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
… … … … … … … … … … … … … … … … … … …
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
… … … … … … … … … … … … … … … … … … …
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?
Alberto Caeiro

Num meio-dia de fim de PrimaveraTive um sonho como uma fotografia.Vi Jesus Cristo descer à terra.Veio pela encosta de um monteTornado outra vez menino,A correr e a rolar-se pela ervaE a arrancar flores para as deitar foraE a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.Era nosso demais para fingirDe segunda pessoa da Trindade.No céu tudo era falso, tudo em desacordoCom flores e árvores e pedras.No céu tinha que estar sempre sérioE de vez em quando de se tornar outra vez homemE subir para a cruz, e estar sempre a morrerCom uma coroa toda à roda de espinhosE os pés espetados por um prego com cabeça,E até com um trapo à roda da cinturaComo os pretos nas ilustrações.Nem sequer o deixavam ter pai e mãeComo as outras crianças.O seu pai era duas pessoas -Um velho chamado José, que era carpinteiro,E que não era pai dele;E o outro pai era uma pomba estúpida,A única pomba feia do mundoPorque nem era do mundo nem era pomba.E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.Não era mulher: era uma malaEm que ele tinha vindo do céu.E queriam que ele, que só nascera da mãe,E que nunca tivera pai para amar com respeito,Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormirE o Espírito Santo andava a voar,Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruzE deixou-o pregado na cruz que há no céuE serve de modelo às outras.Depois fugiu para o SolE desceu no primeiro raio que apanhou.Hoje vive na minha aldeia comigo.É uma criança bonita de riso e natural.Limpa o nariz ao braço direito,Chapinha nas poças de água,Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.Atira pedras aos burros,Rouba a fruta dos pomaresE foge a chorar e a gritar dos cães.E, porque sabe que elas não gostamE que toda a gente acha graça,Corre atrás das raparigasQue vão em ranchos pelas estradasCom as bilhas às cabeçasE levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.Ensinou-me a olhar para as coisas.Aponta-me todas as coisas que há nas flores.Mostra-me como as pedras são engraçadasQuando a gente as tem na mão E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.Diz que ele é um velho estúpido e doente,Sempre a escarrar para o chãoE a dizer indecências.A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.E o Espírito Santo coça-se com o bicoE empoleira-se nas cadeiras e suja-as.Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.Diz-me que Deus não percebe nadaDas coisas que criou -”Se é que ele as criou, do que duvido.” -”Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,Mas os seres não cantam nada.Se cantassem seriam cantores.Os seres existem e mais nada,E por isso se chamam seres.”E depois, cansado de dizer mal de Deus,O Menino Jesus adormece nos meus braçosE eu levo-o ao colo para casa.
… … … … … … … … … … … … … … … … … … …
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.Ele é o humano que é natural.Ele é o divino que sorri e que brinca.E por isso é que eu sei com toda a certezaQue ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divinaÉ esta minha quotidiana vida de poeta,E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.E que o meu mínimo olharMe enche de sensação,E o mais pequeno som, seja do que for,Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivoDá-me uma mão a mimE outra a tudo que existeE assim vamos os três pelo caminho que houver,Saltando e cantando e rindoE gozando o nosso segredo comumQue é saber por toda a parteQue não há mistério no mundoE que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.O meu ouvido atento alegremente a todos os sonsSão as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outroNa companhia de tudoQue nunca pensamos um no outro,Mas vivemos juntos e doisCom um acordo íntimoComo a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhasNo degrau da porta de casa,Graves como convém a um deus e a um poeta,E como se cada pedraFosse todo o universoE fosse por isso um grande perigo para elaDeixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homensE ele sorri porque tudo é incrível.Ri dos reis e dos que não são reis,E tem pena de ouvir falar das guerras,E dos comércios, e dos naviosQue ficam fumo no ar dos altos mares.Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdadeQue uma flor tem ao florescerE que anda com a luz do SolA variar os montes e os valesE a fazer doer aos olhos dos muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.Levo-o ao colo para dentro de casaE deito-o, despindo-o lentamenteE como seguindo um ritual muito limpoE todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha almaE às vezes acorda de noiteE brinca com os meus sonhos.Vira uns de pernas para o ar,Põe uns em cima dos outrosE bate palmas sozinhoSorrindo para o meu sono.
… … … … … … … … … … … … … … … … … … …
Quando eu morrer, filhinho,Seja eu a criança, o mais pequeno.Pega-me tu ao coloE leva-me para dentro da tua casa.Despe o meu ser cansado e humanoE deita-me na tua cama.E conta-me histórias, caso eu acorde,Para eu tornar a adormecer.E dá-me sonhos teus para eu brincarAté que nasça qualquer diaQue tu sabes qual é.
… … … … … … … … … … … … … … … … … … …
Esta é a história do meu Menino Jesus.Por que razão que se percebaNão há-de ser ela mais verdadeiraQue tudo quanto os filósofos pensamE tudo quanto as religiões ensinam ?
Alberto Caeiro

Summa imperii

Posted in Poesia on 24/03/2010 by franzbritten

Nascem joviais as flores! Onde dantes

As profundas raízes dos espinhos me magoavam;

Dissipa-se a névoa que outrora me encobria o rosto

E não deixava transparecer sentimento.

Mas tudo isto tão depressa se altera…

E as flores murcham;

E a névoa encobre-me.

E volto a sentir o meu coração enegrecer…

Raiva por não te poder segurar nos meus braços,

Fúria por estares cativa de outro

Que mais do que eu te merece!

Lamenta-se a minha mente

E entristece-se o meu pensamento;

Corrói-se a arrogância

Que no meu peito reinava,

Por sentir que tudo é tão ténue

Que tudo é tão efémero.

Que graves dores me infligistes,

A que grandes desejos me tentastes,

A que condoídas mágoas me sujeitastes

Só por pensar que um dia…

Que um dia

Te poderia amar.

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